segunda-feira, 30 de junho de 2014

Um pouco de arte...

Diz-se que a obra não pertence ao artista, mas àquele que a interpreta. Por isso, convido-os a refletir sobre esta montagem do fotógrafo paraense Alberto Bitar, vencedora do Prêmio Diário do Pará e que estava em exposição na Casa das Sete Janelas, centro cultural de Belém, quando estive lá, em maio.

O nome do quadro é Bank Blocs.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Análise do movimento Ocupa Castelinho

Uma das leituras debatidas na disciplina de Psicologia em Movimentos Sociais foi o livro Ocuppy Wall Street. A publicação é de 2011 e reúne artigos de pesquisadores contemporâneos sobre os movimentos de ocupação. Entre estes artigos, o texto de Giovanni Alves “Ocupar Wall Street... e depois?” propõe algumas características dos movimentos sociais que se utilizam da ocupação do espaço público para pautar mudanças sociais, como os movimentos surgidos no norte da África, em Portugal, na Espanha e em Nova York.
Paralelo às discussões na disciplina, ocorreu na Faculdade de Direito da UFRGS uma ocupação de estudantes que durou 31 dias. Como recente egressa daquela Faculdade, estive muito próxima às movimentações e frequentemente fui ouvinte nas assembleias e nas conversas de corredores. Venho propor, então, uma análise do movimento Ocupa Castelinho, a partir das características apontadas por Giovanni Alves, apontando proximidades e diferenças.
Primeiro, constituem-se de densa e complexa diversidade social, exprimindo a universalização da condição de proletariedade (os 99%).
No Ocupa Castelinho, a pauta era restrita e os participantes eram estudantes da Faculdade de Direito da UFRGS (além de alguns apoiadores externos). Via-se, entretanto, uma diversidade no posicionamento político dos manifestantes: o apoio à pauta independia de uma concepção política mais “de esquerda” ou “de direita”. Havia uma coesão em torno dos objetivos do movimento.
Segundo, são movimentos sociais pacíficos que recusam a adoção de táticas violentas e ilegais, evitando, desse modo, a criminalização. Os manifestantes têm profunda consciência moral e senso de justiça social.
A ocupação do prédio deu-se de forma pacífica e todo o movimento foi acompanhado pelos funcionários da segurança da UFRGS. Em todas as oportunidades, era reiterada a preocupação com a manutenção do prédio histórico e com os objetos do patrimônio público. Foram formadas comissões para as tarefas de segurança e manutenção, entre outras.
Terceiro, utilizam redes sociais, como Facebook e Twiter, ampliando a área de intervenção territorial e a mobilização social. Produzem sinergias sociais em rede, tecendo estratégias de luta territorial num cenário de crise social ampliada.
Houve a utilização do Facebook e da rede de contatos com outras instituições para dar visibilidade e legitimidade ao Ocupa Castelinho. Todos os dias, eram postadas cartas de apoio recebidas e a página teve quase 3 mil curtidas. Esta visibilidade também atraiu a atenção da mídia local, que fez dezenas de reportagens relatando a evolução do movimento.
















Quarto, são movimentos sociais capazes de inovar e de ter criatividade política na disseminação de seus propósitos de contestação social.
Para demonstrar o apoio de diversas instituições à anulação do Concurso de Direito Penal, pauta principal do Ocupa Castelinho, a escada que dá acesso à sala de reuniões do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão foi coberta por folhas de papel com as siglas das instituições que publicaram cartas. Outra iniciativa que precedeu a anulação foi a realização de um evento chamado “Pizza do Direito”, em alusão à expressão “dar em pizza”, utilizada quando acusações não arquivadas por “acordo de cavalheiros”.


Quinto, expõe, com notável capacidade de comunicação e visibilidade, as misérias da ordem burguesa do polo mais desenvolvido do sistema, apodrecido pela financeirização da riqueza capitalista.
Sexto, os movimentos dos indignados, incluindo o Occupy Wall Street, reivindicam a democratização radical contra a farsa democrática dos países centrais.
O Ocupa Castelinho, por estar dentro de uma instituição tradicional no Estado brasileiro, trouxe à tona discussões sobre os privilégios existentes e a pessoalização das relações no meio acadêmico, culminando na anulação de um concurso pretensamente fraudado.
Giovanni Alves conclui o seu artigo com indagações sobre o futuro da ordem burguesa diante destes movimentos sociais, alertando que existe um contramovimento estatal para manter o status quo.
No âmbito do Ocupa Castelinho, por sua vez, analiso que a coesão surgida entre os estudantes e o debate fomentado vai demorar gerações para se dissipar. E considero todos estes acontecimentos importantes tanto para a instituição, que foi instigada a se modificar, quanto para os participantes, que formaram um senso crítico e exercitaram o direito de manifestação. O status quo permanece inalterado, mas os alicerces para as mudanças estão firmados na Avenida João Pessoa.