segunda-feira, 9 de junho de 2014

A Ocupação do Castelinho

"Às 19 h dessa segunda-feira, os/as estudantes de Direito da UFRGS disseram CHEGA." Assim começa a primeira postagem da comunidade do Facebook "Ocupa Castelinho" e é publicizada a ocupação do espaço físico da sala dos professores e da direção da Faculdade de Direito da UFRGS por estudantes no dia 05 de maio de 2014.

Aquelas centenárias paredes nunca viram algo tão revolucionário. Os estudantes estavam se rebelando contra a falta de lisura em um concurso público e contra a inexistência de diálogo com a direção da Faculdade. Tomaram esta medida drástica para dar visibilidade às suas pautas. E parece que funcionou. Ainda naquela noite a ocupação foi noticiada em vários jornais regionais:

Zero Hora: http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2014/05/estudantes-ocupam-predio-da-faculdade-de-direito-da-ufrgs-4492621.html
Correio do povo: http://www.correiodopovo.com.br/Noticias/?Noticia=524790
Sul21: http://www.sul21.com.br/jornal/estudantes-ocupam-faculdade-de-direito-da-ufrgs-e-exigem-anulacao-de-concurso-realizado-em-dezembro/

A cobertura midiática foi intensa durante todo o período de ocupação. Foi uma das formas utilizadas pelo movimento para pressionar a Reitoria e a Direção da Faculdade para darem atenção às demandas levantadas. Esta reportagem da Zero Hora ilustra bem o contexto da ocupação: http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2014/05/o-que-motivou-alunos-a-ocupar-a-faculdade-de-direito-da-ufrgs-4497209.html

Na reunião do CEPE agendada para o dia 07 de maio, o ponto foi retirado de pauta a pedido de outro professor do Direito. Tentou-se a realização de um Conselho da Unidade (da Faculdade) extraordinário para negociar a saída dos estudantes, mas decidiu-se pela formação de uma comissão de negociação paritária, com a participação de professores, funcionários e estudantes.

Quando o ponto voltou à pauta do CEPE, na reunião do dia 21 de maio, o concurso foi finalmente anulado. As razões, entretanto, não foram os indícios de fraude apontados pelos estudantes, mas um vício formal na gravação das provas orais. Ainda assim, o movimento considerou uma grande vitória. Minha análise também é no mesmo sentido: a sujeira teria sido jogada para baixo do tapete, não fosse a extrema publicização do caso.

O movimento, entretanto, continuou a ocupação. A anulação co concurso era apenas uma das pautas e resistiam outras sem nenhuma resposta formal da Direção: a não-criminalização do movimento, a retirada das bolsas destinadas ao Centro Acadêmico e a utilização restrita do Salão Nobre para a realização de eventos.

Com a comissão de negociação inerte, e uma paralização das atividades dos funcionários em represália à ocupação da Faculdade, encerrou-se o período de diálogo com os órgãos institucionais. A procuradoria da UFRGS ingressou com um pedido judicial de reintegração de posse em 28 de maio, com pedido liminar. A liminar foi deferida em 29 de maio, dando o prazo de 48 horas para a desocupação. O Centro Acadêmico protocolou agravo de instrumento, o qual foi provido também em sede liminar, determinando a realização de uma audiência de conciliação em primeiro grau.

Após a realização da audiência sem acordo, o movimento, em assembleia, decidiu desocupar o espaço e pleitear administrativamente as suas pautas. A desocupação deu-se no dia 04 de junho, após 31 dias, e contou com a presença de oficiais de justiça, que verificaram a inexistência de danos ao patrimônio público.

Em primeiro lugar, o movimento chama a atenção pelo local onde aconteceu: uma faculdade de Direito. Este curso, historicamente, é visto como mantenedor do status quo, e não modificador dele. Antes dele, nesta Faculdade, tenho notícia de apenas uma manifestação nos corredores, ocorrida em meados de 2006, que envolveu apenas uma turma e durou poucas horas.

Destaca-se, também, o seu caráter ordeiro. Nenhum incidente foi registrado, as aulas não foram impedidas e todas as deliberações foram tomadas em assembleias cheias de estudantes e de apoiadores externos. As pautas eram claras, as tarefas eram divididas em comissões e os líderes se alternavam na realização das tarefas de organização e representação.

Outro aspecto interessante é o apoio externo recebido. Alguém comentou no Facebook: "Quando até os comentários no site da Zero Hora apoiam a causa, é porque há muita coisa errada...". Vieram cartas e declarações públicas de diversos Centros Acadêmicos, sindicatos, instituições ligadas à Academia e professores de Direito. A opinião do público em geral, que passava para "espiar" a ocupação ou que comentava nos sites de notícias era também favorável às pautas do movimento e à forma escolhida para pleiteá-las.

Por fim, trago como importante contribuição a realização de diversos debates no espaço da ocupação. Temas como a criminalização dos movimentos sociais, os direitos dos transsexuais, a seletividade penal juvenil e a luta pela moradia foram pautas de rodas de conversa, que contribuíram com a formação acadêmica e social dos participantes.

Eu, como egressa desta Faculdade, vejo com muito bons olhos a mobilização dos estudantes. Fico feliz em ver o fortalecimento do movimento estudantil e a sua clareza de propósitos. Esta geração tem muito trabalho pela frente se quiser arrumar essa velha casa de André da Rocha.

Foto: Direito Ocupado!
Concurso Anulado!

VEM PRA ASSEMBLEIA!

#ocupacastelinho
#17diasocupado

domingo, 8 de junho de 2014

Conversa com a Daniela

Em uma tarde de abril, me reuni com alguns integrantes do Coletivo Fila, com alguns estudantes de jornalismo e com a Daniela. Para mim, era uma parte do trabalho de Psicologia Social II, sobre instituições; para os estudantes de jornalismo, era um projeto de documentário; para o Coletivo Fila, era a concretização da ideia de dar voz ao sofrimento das mães de adolescentes internados na FASE; para Daniela, era uma oportunidade de desabafar. Nas palavras dela: "Eu vim aqui pra contar a outras mães o que eu passei, e também a vocês, jovens, pra conhecerem a minha história.".

E o que tudo isso se relaciona com Movimentos Sociais? Bom, quase nada, a não ser uma frase da Daniela que me chamou muito a atenção: "Quando ele [o filho] sair de lá [da FASE], vai ter essa história pra gritar para o mundo [das vivências na internação]. É como vocês, quando fazem manifestações contra o aumento das passagens. Ele vai ter essa história pra gritar.". Essa frase me fez pensar o quão distante estão as reivindicações dos "estudantes universitários" da realidade vivida por boa parte da população, inclusive daqueles que se beneficiam das conquistas desses movimentos. Ela não vê o preço da passagem como uma demanda dela, ainda que se desloque apenas de ônibus, mas "nossa". A demanda dela é ser ouvida, é ter segurança, é ter a liberdade do filho.

Isso me fez refletir sobre a necessidade de diálogo e de construção conjunta de pautas e soluções. Os movimentos sociais por vezes se dissociam da base em nome da qual militam, perdendo a representatividade das demandas.

Alguns diriam que Daniela é alienada ou oprimida. Eu penso de outra forma: ela não se sentirá contemplada por pautas que influenciam financeiramente na sua vida enquanto não lhe forem asseguradas as necessidades básicas de segurança, atenção e bem-estar. E assim seguimos: "nós" a lutar "por todos" e ela a lutar sozinha...

quarta-feira, 28 de maio de 2014

A proposta do blog

Olá!

Este blog foi criado como trabalho final da disciplina de Psicologia em Movimentos Sociais do Instituto de Psicologia da UFRGS. A proposta da professora Jaqueline Titoni é a criação de um portfólio com reportagens, vídeos, fotos, depoimentos, leituras, tudo o que foi visto pelos alunos durante o semestre que pode ser relacionado com a disciplina. Como a forma de apresentação do portfólio é livre, escolhi reunir as minhas vivências nesta página!

Minha motivação para me matricular na cadeira foi conhecer as contribuições que a Psicologia pode dar para explicar, questionar e construir os movimentos sociais. No Brasil, especialmente nesta época de preparativos para a Copa do Mundo, vem ganhando força uma série de movimentos de massa, o que pode estar refletindo uma mudança de conjuntura social. Ou seria apenas uma euforia por dar voz a inquietações pessoais que não implicará mudanças significativas? 

É muito difícil analisar uma conjuntura quando se está dentro dela, vivendo as modificações a cada dia. Por outro lado, nas palavras de Paulo Freire, "Não pode haver reflexão e ação fora da relação homem-realidade". Assim, espero conseguir me aproximar das respostas às minhas perguntas e, também, oferecer aos (raros) leitores deste blog mais elementos para que construam as suas respostas. 

Boa leitura!